1,3 mil pessoas em situação de rua na Feira

Em 2028 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, pretende divulgar os primeiros números relacionados ao Censo da População em Situação de Rua no Brasil. O levantamento deve começar nos próximos meses, de acordo com informações da própria instituição. A iniciativa é muito bem vinda: o País precisa conhecer melhor quem se encontra em condição de extrema vulnerabilidade social, até para formular  mais efetivas. 

Política

Imagino que o levantamento seja criterioso e preciso, como costuma ser o trabalho desenvolvido pelo IBGE. Mas, antes dele, existiram algumas iniciativas que traduzem um pouco da realidade das ruas. É o caso do “Perfil da população em situação de rua na Bahia”, elaborado pelo Observatório Brasileiro de Públicas com a população em situação de rua, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais.

Neste documento – datado de dezembro de 2023 – é possível saber que, na Bahia, 13,4 mil pessoas estavam à época em situação de rua. A maioria absoluta em Salvador: 8,7 mil. Na sequência, aparece a  Feira de Santana, com a segunda maior população de rua do estado: exatas 1.388 pessoas.

No estado, pretos e pardos representam 93,5% dessa população. Os brancos, por sua vez, são 5,78%. Sabe-se que os negros, na Bahia, representam a maior parte da população, cerca de 80,8%. No universo dos que enfrentam a dura realidade das ruas, como se vê, eles estão sobre-representados. Nada surpreendente: são maioria entre os vulneráveis e também o são entre os extremamente vulneráveis. 

Materialde referência geográfica

Com relação à faixa etária, 48% tem entre 18 e 39 anos e 39,4% situam-se no intervalo de 40 a 59 anos. Os homens são maioria absoluta: 10,8 mil, contra 2,5 mil mulheres. No que se refere à escolaridade, 6,3 mil tem o fundamental incompleto e 1,9 mil o médio completo. Só 95 pessoas nesta população chegaram a ingressar no ensino superior, como revela o levantamento.

A prolongada crise econômica de meados da década passada e, sobretudo, a pandemia da Covid-19 lançaram muita gente – famílias inclusive – nas ruas. A questão, a propósito, sempre foi pouco discutida no noticiário, que vem há tempos privilegiando tretas de famosos. Nos últimos anos, porém, o perfil de quem está na rua mudou. Veem-se homens, jovens, sozinhos, em plena idade produtiva, largados nas calçadas.

Quem são? O relatório elaborado pela UFMG não indica, mas é provável que muita gente que se encontra em situação de rua no Brasil seja egressa das prisões. Afinal, no Brasil, prende-se a torto e a direito; quem sai das prisões não perde o estigma do cárcere e dificilmente arranja ocupação; há, também, as facções enraizadas, com sua violência extrema que impede muitos de retornarem a seus locais de origem. 

Assuntosdelicados

Apesar de ser facilmente notada, a realidade das ruas é solenemente ignorada no Brasil. Finge-se, simplesmente, que o problema não existe. Mas existe e vai ganhando dimensão com a política do encarceramento em massa. O censo do IBGE vai trazer mais informações e um perfil mais preciso de quem vê a vida a partir das calçadas.

É evidente que o censo não terá o condão de despertar a sociedade para o problema. Mas servirá de referência na busca por soluções, caso haja governos que se disponham a enfrentar a questão. Por si só não resolve, mas é um passo indispensável.

André Pomponet

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